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Data: 07/03/2021 - 10:46 - Por: Mídia News

"Mais da metade dos pacientes hoje são jovens em estado grave"


O médico Maikon Ticianel, que atua na linha de frente do atendimento a pacientes com Covid-19, está há um ano morando fora de casa.

 

Desde o começo da pandemia, ele se mudou para um flat como forma de proteger os pais idosos. Em todo este tempo, o profissional atuou no pronto-atendimento do Hospital São Mateus, em Cuiabá, recebendo pacientes com suspeita e diagnóstico de Covid.

 

Da experiência do dia a dia, o médico, de 36 anos, não tem dúvida de que os jovens são os grandes responsáveis pela disseminação do vírus. "Na minha concepção, são eles os culpados. Não é a pessoa que saiu para trabalhar", diz.
 

Ticianel afirmou ainda que, se no ano passado os idosos eram as maiores vítimas do vírus, isso mudou agora.

 

"Lógico que temos pacientes idosos, mas mais da metade dos nossos pacientes hoje são jovens e em estado grave", disse.

 

Nesta semana, Ticianel encontrou um tempo para uma entrevista ao MidiaNews, na qual falou sobre sua experiência neste um ano de luta contra a pandemia.

  

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

 

MidiaNews – Nos próximos dias completamos um ano do primeiro caso de Covid em Mato Grosso. Como foi esse período para o senhor trabalhando no pronto-atendimento de um hospital que recebe pacientes?

 

Maikon Ticianel – Tem sido uma experiência única. É extremamente cansativo, principalmente pelo nível de gravidade dos pacientes e porque a gente vê que está enxugando gelo, porque os pacientes não se cuidam. O hospital dá respaldo para a gente trabalhar, não podemos reclamar disso. Mas o maior legado de experiência é como as pessoas não se importam com elas mesmas.

 

São poucos pacientes que você ouve dizer que pegou porque alguém levou a doença até a casa dele ou porque estava no trabalho. A maioria fala: “Realmente, doutor, eu peguei porque eu aglomerei”. E a pessoa fica arrependida por isso. Eu comparo com o paciente que tem câncer de pulmão, que fumou a vida toda e, no final, fala: “Ah, doutor, se eu soubesse, nunca teria fumado”.

 

Então, é uma experiência um pouco ruim por isso, porque você sabe que vai continuar acontecendo amanhã, depois de amanhã, porque as pessoas só se preocupam quando estão com a doença, quando estão graves. Elas têm uma negação para a doença. Você fala que a pessoa provavelmente está com Covid e que precisa fazer alguns exames, ela já responde: “Não, doutor, não estou com Covid”. Mesmo estando com a doença, ele acha que a doença não existe.

 

MidiaNews – Falta conscientização da população?

 

Maikon Ticianel – Bastante, bastante! A gente está aqui para atender a todos os pacientes, independente de como pegou, mas o que frustra um pouco é você saber que está atendendo, está fazendo o melhor de si, e os mais interessados não estão preocupados em se cuidar. A situação é triste. As pessoas precisam entender o que está acontecendo, porque elas parecem viver presas em uma bolha e ignorando o que ocorre ao redor.

 

MidiaNews – E na vida privada? Esteve muito afastado da família?

 

Maikon Ticianel – Eu estou afastado da minha família há exatamente um ano, desde que o primeiro caso foi registrado em Cuiabá, no início de março de 2020. Eu morava com meus pais, que são idosos. Então me mudei para um flat e sigo sem previsão de volta. Já peguei Covid, já me vacinei, mas a gente sabe que pode ter reinfecção, que o vírus pode estar na nossa roupa porque a gente está a todo o momento em contato com a doença.

 

Vejo meus pais uma vez a cada dois meses, de dentro do carro. Paro na garagem e dou um oi para eles. É uma situação que nunca imaginei viver. E se alguém me falasse em novembro passado que a gente ia viver tudo de novo em março deste ano, eu duvidaria. Eu achei que haveria uma segunda onda, mas não com este impacto. As pessoas não estão falando muito, mas está pior do que a primeira onda. O nível de gravidade, o nível de hospitalização dos pacientes está pior do que a primeira onda.

 

MidiaNews – Seria culpa das novas variantes?

 

Maikon Ticianel – Não dá para saber, porque a gente não testa as variantes. Não temos um exame para testar variante, mas podemos supor que sim, porque as pessoas aglomeraram no final do ano, aglomeraram também no Carnaval – a gente sabe disso – e, provavelmente, a nova variante está circulando com bastante intensidade. Já vimos estudos que mostram que ela tem 10 vezes mais carga viral do que a primeira. E isso corrobora com o nível de gravidade dos pacientes.

 

MidiaNews –- Algo que se tem falado muito nas últimas semanas é o aumento dos casos graves entre jovens. O senhor percebeu isso também no Hospital São Mateus?

 

Maikon Ticianel – Sim, e isso é muito importante: os pacientes que estão ficando graves agora são jovens. No início da primeira onda, eram mais pacientes idosos. E o perfil dessa segunda onda – ou talvez a gente nem possa falar que terminou a primeira –, dessa nova etapa da doença, é paciente jovem. São pacientes com média de 35 a 50 anos de idade. Lógico que temos pacientes idosos, mas mais da metade dos nossos pacientes hoje são jovens e em estado grave.
 

MidiaNews – Eles já chegam em estado grave ou é o quadro da doença que evolui com mais rapidez?

 

Maikon Ticianel – Eles ficam em estado grave muito rápido. Estávamos acostumados a atender um paciente hoje e esperar que, se aquele paciente for ficar grave, isso vai ocorrer daqui a 10 dias. O que a gente percebe agora é que atendemos o paciente hoje e daí, em dois ou três dias, ele volta, a gente faz a tomografia e já tem 30% de acometimento, dois dias depois tem 60%, tem que internar e evolui muito mal. Um paciente com seis dias de doença evolui mal.

 

MidiaNews – A maioria destes pacientes jovens possui comorbidade?

 

Maikon Ticianel – Não, não necessariamente. Certa quantidade tem alguma comorbidade, mas não está afetando apenas hipertenso, diabético. Está afetando quem não tem comorbidade alguma. Há bastante paciente sem comorbidade.

 

MidiaNews – Quando o senhor fala que a situação piorou, não significa apenas a gravidade da doença, mas também o número de pessoas infectadas?

 

Maikon Ticianel – Aumentou significativamente o número de pessoas que procuram atendimento e aumentou o nível de gravidade também. O percentual de pacientes graves é maior, tanto é que tivemos que abrir 10 novos leitos de UTI nesta semana para dar conta não só dos pacientes que estavam entrando, mas também daqueles que já estavam internados na enfermaria e evoluíram de gravidade. Se é a nova cepa que é mais agressiva ou não, não temos como quantificar.

 

MidiaNews – O senhor tem a média de quantos casos de Covid atende por dia no pronto-atendimento?

 

Maikon Ticianel – Atendemos de 180 a 200 pacientes por dia, de todos os tipos de doença. Desse total, 70% a 75% dos casos são Covid.

 

MidiaNews – E quanto a leitos de UTI? Qual é a situação hoje?

 

Maikon Ticianel – Nós possuímos 30 leitos de Covid e 17 leitos não Covid. Para doenças que não são Covid, nunca deixamos de ter vagas. Mas nesse momento [tarde de sexta-feira, 05], estou com os 30 leitos [Covid] ocupados. Não tenho vaga na UTI agora. Na enfermaria, tenho 33 leitos para Covid e também estão todos ocupados neste momento.

 

A gente dá conta do atendimento, mas da seguinte forma: às vezes, os pacientes ficam internados por um período no PA, onde temos uma semienfermaria com oito leitos. E aí ficamos fazendo um rodízio com os pacientes lá de cima. O paciente tem alta, libera leito e a gente sobe. Daí ele volta. E estamos nessa situação, “ciclando” pacientes. A gente não deixa de atender de forma nenhuma.

 

Nesta semana, inclusive, chegaram a dizer que o PA tinha fechado, mas na verdade ficamos de quatro a cinco horas sem fazer internação de novos pacientes porque chegaram cinco pacientes graves de uma vez só e, para dar conta de atendê-los com qualidade, a gente pausou as internações. Continuou o atendimento, tínhamos médicos para isso, mas precisamos pausar por um tempo para garantir atenção aos graves que haviam chegado.

 

Mas o fluxo é esse. Neste momento, a gente não está tendo vaga disponível de imediato, de o paciente chegar e já ser internado. Ele chega, interna no PA e, quando a gente realoca um leito [na enfermaria], a gente o coloca.

 

Gostaria de ressaltar, apenas, que o atendimento e as internações são separadas. Então a gente frisa também que não é para o paciente que está com outro sintoma deixar de vir para o hospital por medo de pegar Covid porque ele acaba ficando pior. Teve um paciente infartado que demorou mais de 12h para procurar o hospital por medo de pegar Covid, para se ter uma ideia.
 

MidiaNews – O pânico está muito grande.

 

Maikon Ticianel – Exatamente. É até curioso. Tem paciente em pânico, até exagerado, e a maioria não está nem aí para a doença.

 

MidiaNews – A gente viu toda aquela situação vivida em Manaus recentemente. Aqui também há esse temor de faltar oxigênio nos hospitais?

 

Maikon Ticianel – Não, a gente nem cogita a falta de oxigênio ou de suprimentos. Com isso, não temos preocupação nenhuma no momento.

 

MidiaNews – Como o senhor viu o decreto do governador Mauro Mendes, com medidas mais duras de confinamento?

 

Maikon Ticianel – Eu acho que as medidas são necessárias, mas vieram um pouco tarde. E alguns serviços deveriam ter horário expandido. Bares e restaurantes já deveriam ter sido fechados ou restringidos de alguma forma há muito tempo. Mas supermercados, por exemplo: acho um absurdo muito grande eu ir ao supermercado às 18h30 e ele estar lotado, porque é quando todo mundo sai do trabalho. Se você deixar o supermercado aberto até a meia-noite, não vai haver tumulto.

 

Eu sou muito crítico a isso desde o primeiro lockdown. Se você restringe o horário, todo mundo aglomera. Mas em relação às restrições de circulação de pessoas, restrição a bares e restaurantes, sou a favor. Porque você não vê ninguém no supermercado ou em uma agência bancária sem máscara. Você vê num restaurante, no bar. Esses ambientes deveriam ter sido restritos antes. Aí você vê [o prefeito] Emanuel Pinheiro querendo que ficasse até 23h. É totalmente descabido.

 

Eu vejo a necessidade da restrição, mas da forma como foi feita, há equívocos. Poderia ter sido feito há umas quatro semanas. Já vínhamos alertando sobre a necessidade, porque os atendimentos já estavam aumentando, os casos se agravando, mas ninguém deu atenção para o assunto.

 

MidiaNews – O senhor acha que o modelo de lockdown adotado por países da Europa e da Ásia deveria ter sido adotado no Brasil?

 

Maikon Ticianel – Eu acho que lockdown total não tem tanta eficácia, porque quando você libera essas pessoas, elas aglomeram e aí acaba acontecendo vários picos da doença. Tinha que ser uma restrição controlada e contínua. 

 

O brasileiro é muito complicado. Estava restrito, o Carnaval foi proibido, e ficamos sabendo de um monte de festa clandestina. As pessoas aglomeram em casa. Às vezes você pergunta para um paciente e ele responde: “Não, doutor. O máximo que fiz foi ir a uma festinha na casa de um amigo. Tinha umas 20 pessoas”. Eu ouço isso todo dia.

 

Elas não têm noção. O brasileiro culturalmente não raciocina sobre o que pode acarretar de mal para ele.

 

MidiaNews – O senhor está há um ano vivendo sob pressão. O que sente quando passa por um bar lotado? Dá vontade de mandar todo mundo para casa?

 

Maikon Ticianel – Dá vontade. Quando passo em um bar lotado, dá vontade de parar e xingar todo mundo. O pior é quem nem choca mais. Dá vontade de jogar um balde d’água em todo mundo, para irem embora para casa. O jovem é muito imprudente. 

 

MidiaNews – O senhor acha, então, que esses jovens que lotaram bares e casas noturnas têm culpa pelo aumento no número de casos?

 

Maikon Ticianel – Claro que sim. Na minha concepção, são eles os culpados. Não é a pessoa que saiu para trabalhar. Por isso que sou um pouco reticente em falar em lockdown total, porque, querendo ou não, precisamos pensar nas pessoas que podem passar fome se isso acontecer. Não podemos fechar os olhos para isso.

 

O problema são os jovens imprudentes. Porque foi fato: na primeira onda, eles saíram, alguns pegaram a doença, levaram para casa e mataram os idosos. É fato. Os jovens no passado mataram os idosos. Agora, eles acharam uma variante que está pegando e afetando a eles com força.

 

Eu fiquei chocado esses dias, quando o Flamengo foi campeão. Estava saindo do hospital e indo para casa, e passei em frente ao Baronês (antigo Getúlio Grill), que fica no meu caminho. Havia umas duas mil pessoas na rua.

 

Porque são pessoas que vão parar no hospital, superlotar o hospital e, às vezes, vai morrer gente por culpa deles. Porque eles vão superlotar o hospital, vão internar e talvez podemos não conseguir atender um paciente mais grave, que não tinha culpa nenhuma.

 

MidiaNews – Chega a ser frustrante?

 

Maikon Ticianel – É. Eu saio do hospital 23h, volto às 7h, porque a nossa rotina está desse jeito para dar conta de tudo o que está acontecendo. E, além de coordenar o PA, também dou plantões, porque a gente não está conseguindo médicos também.

 

Aí você fala: "Trabalho todo dia, me abdico de um monte de coisa, para cuidar de pessoas imprudentes, que poderiam estar em casa, se cuidando. É frustrante, sim. 

 

MidiaNews - Um estudo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira apontou que dois em cada três pacientes intubados morreram no Brasil durante a pandemia. É essa a média onde o senhor trabalha?

 

Maikon Ticianel – Não. A gente salva, tira bem mais pacientes da UTI. A mortalidade não chega a um para cinco dentro do nosso serviço. Mas, esse estudo é feito em um âmbito que conta pacientes do SUS, pacientes que foram intubados de última hora, e não refletem a realidade do Hospital São Mateus. A nossa mortalidade é menor, mas a média [de óbitos] é em torno de 20% dos pacientes graves intubados.
 

MidiaNews - Que recado a senhor dá para quem ainda insiste em aglomerar e correr riscos?

 

Maikon Ticianel – Se eles não se preocupam com os familiares  que a gente já viu que eles não se preocupavam na primeira onda –, que sejam um pouco egoístas e se preocupem com eles.

 

Porque paciente jovem morre, fica em estado grave. E cada dia mais há pacientes jovens, sem comorbidades, morrendo. E é uma doença que mata rápido. Às vezes, não dá tempo de um familiar ligar para o outro dizendo que o ente está sendo intubado. 

 

MidiaNews – A única expectativa é vacina?

 

Maikon Ticianel – Expectativa. Porque não sabemos ainda se elas cobrem todas as variantes. Acredito que a vacina vai dar um alento muito grande, mas não acredito que em 2022 esteja todo mundo vacinado e a Covid acabou. Não acredito nisso.

 

Acredito que será uma doença que, assim como a H1N1, vai existir na nossa vida para sempre. Com uma intensidade e quantidade menor, porque as vacinas vão ficando mais eficazes, mas não é uma doença que vai desaparecer. Os cuidados deverão ser tomados por muito tempo ainda.


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