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Data: 07/03/2021 - 09:33 - Por: Midia News

"Antes de ser internada, ela pediu que eu cuidasse do seu filho"


Quando os sintomas de Covid-19 começaram a se agravar e a professora de Educação Física Lidiane Seba, de 35 anos, precisou ser internada, ela mandou uma mensagem para a irmã, Larissa Seba, de 32, pedindo que, caso o pior acontecesse, a farmacêutica cuidasse do filho dela, de 10 anos. 

 

Lidiane estava com 50% do pulmão comprometido pela doença e já sentia dificuldade para respirar. Depois de oito dias na UTI, ela acabou não resistindo às complicações da Covid-19 e morreu na terça (2). 

  

Ainda abalada pela morte da irmã, Larissa aceitou conversar com a reportagem. Ela falou sobre os primeiros sintomas, da piora gradual no quadro e da indignação pelo fato do Brasil ainda estar tão atrasado na vacinação.

 

Confira a entrevista na íntegra:

 

MidiaNews - Como tem sido estes dias para a família? 

 

Larissa Seba - Muito difíceis, porque a Lidiane era uma pessoa extremamente alegre. Ela alegrava a família e os amigos. Em qualquer lugar que fosse, era o centro das atenções. Todo mundo gostava dela. Na minha família, por parte de pai e mãe, éramos só nós duas. Temos outras duas irmãs, que são filhas do nosso pai. Onde ela estava, eu estava junto. 

 

Sou mais fechada e ela sempre foi mais carinhosa, gostava de beijo e abraço.Temos só dois anos de diferença. Hoje [sexta-feira, 5] ela faria 35 anos. Era a pessoa que estava sempre ligando para reunir a família. 

 

MidiaNews - Como começaram os sintomas da Covid-19 na Lidiane?

 

Larissa Seba - Numa sexta-feira, ela disse que estava com tosse, uma leve dor de garganta e coriza. Lembro que cheguei a dizer que ela precisava ir ao médico para ver se era Covid-19. Passou o final de semana bem. Depois, ela me contou que tinha marcado para segunda.

 

Ela foi ao Centro de Triagem, na Arena Pantanal, e tinha quase 300 pessoas na frente. Ela chegou cedo e foi atendida à tarde. O exame deu positivo e encaminharam ao médico. 

 

Chegando lá, prescreveram o kit-covid e mandaram para casa. Eles não pediram tomografia, disseram que estavam sem oxímetro naquele dia e não verificaram a saturação de oxigênio dela. Ela ainda me ligou perguntando se já começava a tomar, falei para ela que era melhor começar imediatamente.

 

Dois dias depois foi piorando ainda mais. No terceiro dia, foi ao médico de novo e já ficou internada na UPA do Verdão. A saturação estava em 89%, o que já é considerado grave, porque o normal é 95%. 

 

O pulmão estava 50% comprometido. Quando recebeu oxigênio, deu uma melhorada. Mas naquela noite mesmo piorou. No dia seguinte, o médico já pediu para chamar minha mãe e disse que achava melhor que a Lidiane fosse para uma UTI.

 

Depois não tivemos mais contato. Três dias depois ela precisou ser intubada por conta de mais uma piora no quadro. Não estava mais conseguindo respirar. Desse dia em diante só foi agravando.

 

Teve pneumonia, precisou de hemodiálise… Nos últimos boletins que recebemos, nós já sabíamos o que aconteceria. Sou da área da saúde, sou farmacêutica, na hora que via os boletins pensava: “Meu Deus!”. 

 

MidiaNews - Ela chegou a comentar se tinha alguma desconfiança sobre como foi contaminada?

 

Larissa Seba - Não. Ela é professora de Educação Física e estava como instrutora em um estúdio de pilates, com poucos alunos. Não estava saindo e era bem rigorosa por conta dos nossos avós. Ela era muito apegada a eles, porque fomos criadas por eles até os 15 anos. Minha mãe engravidou muito nova, aos 16. 

 

Acredito que pode ter sido indo ao supermercado ou ao banco, porque ela sempre acompanhava meu avô. Infelizmente muitas pessoas ainda andam sem máscara na rua, tossindo… A probabilidade de pegar é alta. Mas a Lidiane era bem consciente e preocupada, nem tanto por ela, porque era muito saudável, não pegava nem resfriado. Mas estava preocupada com minha mãe e nossos avós.
 

MidiaNews -  O filho dela também contraiu a doença?

 

Larissa Seba - O filho dela tem 10 anos, graças a Deus não sentiu nada. Eles moravam com a minha mãe. A ficha dele ainda não caiu. No sepultamento ele não foi, ficou com a avó e chorou muito perguntando por que não podia abraçar a mãe pela última vez. 

 

A Lidiane fazia tudo por ele, eram muito unidos. Antes dela ir para o hospital, ela mandou uma mensagem pedindo para eu cuidar do filho dela se acontecesse algo. Ela sempre foi muito família, essa era a preocupação dela. 

 

MidiaNews - Você teve outras perdas na pandemia?

 

Larissa Seba - Dois irmãos do meu avô faleceram, e agora a minha irmã. 

 

MidiaNews - Uma das características dessa nova onda, que pode estar sendo provocada por uma nova variante do vírus, é o aumento dos casos graves em jovens. Acredita que ela possa ter sido contaminada por uma variante mais letal?

 

Larissa Seba - O médico chegou a dizer que ela pode ter se infectado com a nova variante por conta da agressividade com que tudo aconteceu.

 

O quadro dela piorou muito rápido. 

  

Não sei se seria diferente se no dia que ela procurou o Centro de Triagem tivessem avaliado a saturação de oxigênio. Mas agora não adianta também pensar nisso.

 

MidiaNews - Fica abalada em saber que se, o Brasil não tivesse tão atrasado na vacinação, a Lidiane poderia ter sido imunizada?

 

Larissa Seba - Sim! É outro ponto que fico indignada. Ela também era profissional de saúde, não de linha de frente. Tentamos, mas não conseguimos. Independente disso, acredito que se tivesse sido organizado, se o Governo tivesse preocupado, estaríamos em outra situação e não seriam mais de 260 mil mortos.

 

As pessoas acham que é brincadeira. Minha irmã era uma atleta, saudável... A mutação do vírus é perigosa, ele está mais resistente.

 

Está levando jovens para UTI. É uma situação que é uma calamidade. É um asburdo porque não é só a minha familía que está chorando, muitas também estão e outras ainda vão. A vacina ainda vai demorar. Fora a desorganização. O que nos resta?

 

As pessoas acham que é besteira, que é uma fraude. Mas eu vi acontecer com a minha irmã. Antes de ir para UTI, ela me mandou um áudio já quase sem consegui falar, foi desesperador. Ela ficou lá oito dias intubada sozinha, porque ninguém pode entrar. O enterro foi com caixão lacrado. Eu não vi mais a minha irmã.

  

MidiaNews -  Apesar de tantas mortes, muitos ainda insistem em aglomerar e fazer festas. O que você diria para essas pessoas que desdenham da morte?

 

Larissa Seba - Primeiro que são irresponsáveis, porque podem se contaminar e ainda levar o vírus para casa. Uma pesosa contaminada contamina muito mais gente. É um perigo e a primeira coisa que deve ser pensada. Gostaria que tivessem mais consciência, mais empatia... Agora não é hora, é hora de ficar em casa, cuidar dos nossos.

 

Depois que morre não adianta. Não volta! Não gostaria que as pessoas passassem pelo estou passando, porque a Lidi era uma pessoa ótima.

 

MidiaNews -  Nesta semana, o Governo do Estado decretou um minilockdown. Acha que a medida foi correta ou defende algo ainda mais restrititivo?

 

Larissa Seba - Eu acredito que deveria ter um lockdown mais restritivo pelo menos durante 15 dias, por conta desse pico de novos casos e mortes. Também sou totalmente contra a volta às aulas presenciais, porque essas novas variantes acabam infectando as crianças, além delas poderem contaminar as famílias e os professores.

 

E outra: se você não consegue fazer adultos seguirem as medidas, usarem máscaras, o que dizer das crianças, que não têm compreensão da gravidade? As pessoas precisam parar e pensar um pouco. Há países que estão conseguindo conter. E se seguíssemos as normas?

 

"Ah, mas o comércio vai falir". Por que é tão difícil entender que a economia conseguimos recuperar? Precisamos de medidas rígidas para não colapsar o sistema de saúde. A Lidiane teve chance de ir para UTI, mas e agora que as pessoas estão morrendo sem ar enquanto esperam?

 

Brasileiro se diz tão cristão, mas não consegue ter amor ao próximo. O que falta é amor.

 

MidiaNews -  Qual e melhor lembrança que ela deixará para você?

 

Larissa Seba - Hoje fiz um texto para ela... Em dezembro foi meu aniversário, não quis comprar bolo e ela falou: "Que absurdo, Larissa! Comemorar aniversário sem bolo". Ela achava o cúmulo comemorar um aniversário sem bolo.

 

Ela era muito engraçada. Estavámos fazendo planos, pensando em viajar quando isso passasse. Ela também estava pensando em construir uma casa. A academia estava voltando a ter alguns alunos, porque ficou muito tempo fechado, a Lidiane ficou praticamente sem renda. Eram muitos sonhos, ela tinha 34 anos só.


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